Dois sentimentos estavam conversando em um dia nublado. Um deles era todo cuidadoso, sua voz era um sussurro, as palavras belas e cheias de elogios, como todos aqueles que o sentem; este era o amor! Já o segundo vinha com a voz lamentada, o suspiro constante em suas falas, teu jeito e tuas frases era sempre no passado, sempre na lembrança; este se chamava saudade.
Os dois conversavam dentro de um coração, onde a menina de olhos já sem brilho chorava e lamentava. A saudade fazia a menina sentir a dor aguda no peito.
- Ai. - gritava o amor. E inflava o peito da menina para que esta se acalmasse.
- Mas nunca mais a veremos! – Exclamava a saudade vendo pelos os olhos da menina o caixão aberto com a senhora de porcelana, perfeitamente imóvel.
E a saudade trouxe a lembrança, quando viu aquelas rugas tão estáticas, às rugas que já riram tanto, o cabelo ralinho e branco penteado e imóvel mesmo com o vento. Aquele cabelo que já foi motivo de risada entre todos. A menina deu um pequeno sorriso quando a saudade a lembrou da cena, o amor lembrou-se de como a amava mesmo que mal houvesse ido visitá-la. A saudade lembrou que a senhorinha parada como estatua era irmã de outra pessoa que já havia ido embora a tempos, mas que no coração da menina ainda continuava presente. As lagrimas rolaram na face da criança, o rosto vermelho, de olhos agora inchados.
- Eu não agüento mais. – Dizia o amor. – Qual a razão de existir se no fim só fica a dor?
- Você pelo menos tem felicidade em alguns momentos. – Reclamava a saudade. – E eu que só faço é lembrar? E chorar suspirando?
Não havia senso entre os dois sentimentos. E a menina continuava a sofrer com eles brigando dentro de si.
O fim. Estava no fim. A menina e os dois sentimentos sabiam disso. A dor e a cicatriz iam ficar para todo sempre na alma e no coração, assim como muitas outras que já estava no coração da menina.
Até que no lado mais escuro, onde a saudade e amor em suas discussões e dores haviam formado o sentimento tristeza, bem lá no fundo, uma luz começou a brilhar. A principio tão mínima que não parecia ser real, mas aos poucos foi crescendo e iluminando a escuridão. A menina a sentia dentro de si. Os soluços se acalmaram.
A luz começou a ficar tão forte que os dois sentimentos enraizados um no outro provocando a dor e a tristeza a viram e se perguntaram quem seria com brilho tão intenso. Assim que a luz os alcançou a menina parou de soluçar. Aquela luz havia trago a paz.
- Quem és tu que acalma minha dor? – Perguntou o amor.
- Quem é você que me trouxe uma saudade mais feliz? - Perguntou a saudade mal acreditando nas próprias palavras. As suas lembranças agora faziam a menina rir. E não chorar. A luz havia extinguido as lagrimas por completo. O amor já se sentia mais leve como deveria ser.
- Acaso não se lembram mais de mim? – Perguntou a luz em voz melodiosa e calma
O amor e a saudade não responderam.
- Eu sou vossa mãe, e de todos os outros sentimentos. – continuou a Luz. – Eu trago a paz quando abrem uma porta para mim. Eu trago um novo futuro se tiverem fé em mim. Eu sou aquela que tem todos os sentimentos dentro de um. Sou um milhão em uma só. Eu sou o terceiro sentimento desta menina!
A saudade e o amor lembravam vagamente da mãe de todos os sentimentos, parecia que fazia muitos anos desde que ela visitou o coração da menina.
- Agora, vamos modificar vocês para que a menina sinta uma saudade feliz, ame um amor saudável e que a tristeza se transforme de volta em alegria!
E assim fez o terceiro sentimento. Modificou e ajustou. A criança agora sorria com as lembranças, amava de forma feliz e cultivou a fé dentro do se coração.
O terceiro sentimento sempre existiu em todos e em tudo por muitas vezes quase apagado, mas nunca extinto, tal sentimento influenciava nos dois primeiros e jamais os abandonava; este se chamava esperança!
A menina agora tinha a esperança que veria aquelas rugas de novo, que sentiria aquele abraço e ouviria a voz leve daquela senhorinha agora tão gélida. A menina tinha a esperança que a alma agora desprendida do corpo estaria feliz, cantado e voando pelos céus. Que aquela alma agora era um anjo de Deus!
Tudo isso só por causa da esperança!
Em Homenagem a Tia Felícia
Por: Mayana Haríshima



















